Olhar e não enxergar. Isso é o que fazemos todos os dias ao sair de casa: olhamos, porém, não enxergamos. Para melhor entendimento basta consultar o dicionário, no qual diz: olhar significa dirigir os olhos para algo, fitar a vista ou mirar uma direção; já enxergar é perceber pela vista, distinguir, notar com clareza e ter discernimento. Ao observar essa diferença, nota-se que muitas vezes a realidade das pessoas nas ruas passa despercebida no dia a dia, e é justamente esse discernimento sobre a situação que o projeto busca trazer.
Nesse contexto, onde quero chegar com esse assunto é em como o cenário das pessoas em situação de rua é complexo. Ao entrar no projeto de extensão Diagnóstico da População em Situação de Rua, pude ter mais contato com essas pessoas e passei a perceber a dimensão desse problema, não só em Caratinga, mas em todo Brasil, que segundo o CadÚnico, em Maio de 2026 foi contabilizado mais de 388 mil pessoas nessas condições. Ficou perceptível que, nas entrevistas que realizei, as questões como depressão, ansiedade e uso de substâncias estavam presentes em muitos dos relatos, revelando que, por trás da situação de rua, existem histórias marcadas por diferentes formas de sofrimento e falta de apoio.
Diante disso, um dos momentos mais tocantes nesse projeto foi a entrevista com um homem em situação de rua de aproximadamente 35 anos, na ponte perto do Terminal Rodoviário de Caratinga-MG, ele relatou ser usuário de crack e álcool, tem família que, segundo o próprio, o abandonou, perguntei o que ele achava que o ajudaria a sair das ruas e ele disse: “a depressão não me deixa fazer nada, já tentei de tudo, trabalho o máximo que consigo vendendo latinha”. No fim, perguntei se ele queria deixar uma mensagem de reflexão, e a resposta foi direta: “ninguém está na rua porque quer...”. Essa resposta contrariou algumas ideias que eu já tinha ouvido sobre essas pessoas e me fez perceber que cada uma delas pode ter chegado à situação de rua por motivos e circunstâncias diferentes.
A vida é complexa, as pessoas são complexas, necessitando, muitas vezes, mais do que só olhar.
